Querido diário, sinto que hoje tudo pode mudar, sinto que nada está como antes e que algo vai acontecer, sinto que estou diferente do normal e que meus pensamentos estão brigando entre si. Querido diário, é como se tudo a minha volta não fosse mais meu, não fosse mais eu, não fosse mais tudo que vive um dia, sinto como se aquele abismo escuro de que tanto fugi estivesse ao meu lado e eu me entregasse a ele.
Querido diário, não sei o que fazer, o dia está agradável com nuvens carregadas e um frio confortante, não vejo crianças na rua, nem casais apaixonados na praça, não vejo carros, não vejo movimento, não vejo nada além da parede morta do cômodo onde me encontro, nada além do bege que cobre os cantos, os porta retratos com saudade, os objetos que tentam mostrar algo, algo que já não sei o que é, fico aqui parada, esperando a noite cair, mais uma vez, e me enterrar na solidão da noite, me enterrar em meus pesadelos, que a essa altura são os únicos que colocam sentido em algo.
Querido diário, hoje a janela parece totalmente reconfortante, os degraus da escada me lembram uma saída e meus pulsos clamam por algo forte, algo doloroso. Sim meu diário, meu querido e único diário, os pensamentos que me cercam hoje não são os mais normais, ou será que são, me pergunto a essa altura o que é loucura, ou o que é sanidade, o que é solidão, o que é alegria. Querido, agora eu vou, a janela me chama e a escada me espera, minha volta pode não existir, pois meu mundo já não existe mais.
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