sábado, março 13

01:40 a.m

- Tata, quanto tempo, tudo bem menina? - seu sorriso falso não me enganava nem um pouco, como assim tudo bem? Faria alguma diferença saber sobre meus dias ou não, afinal, meus dias, nem eu mesma sabia ao certo sobre minha vida, andava tudo tão confuso e sem rumo que eu não tinha, assim na ponta da língua, a resposta para essa pergunta tão simples; simples? Só um momento, não há nada de simples em "quanto tempo, tudo bem", afinal, se faz mesmo tanto tempo então existem muitas variações em bem e mal nesse período, bem, na verdade era o que eu realmente não estava, dentro de mim explodia um mundo inteiro, naquele momento eu lembrava de tudo que me açoitava durante o silêncio, era uma mistura de dor, solidão e eloquência, a essa altura feridas já eram tão parte de meu corpo que já nem notava as novas. Solidão, só, só, que complicado isso, como alguém podia se sentir sozinho em um mundo como o de hoje que onde você olha existem milhares de rostos, não sei, mas era como eu estava, sozinha, em meio a esses rostos secos, em meio aquilo que chamo de familia, em meio aos meus,nomeados, amigos, era uma solidão estranha, sentia na verdade falta de algo, algo que não sei explicar, na verdade acho que todo esse tempo sentia falta de mim, sim, só podia ser isso, falta dos dias de chuva olhando pela janela, das músicas que saiam do rádio, do livro, de minha cama, falta do gosto, do cheiro, dos sonhos, falta das conversas e brigas idiotas com eles, eles, onde estão? Existiam realmente ou eram só mais uma ilusão? A unica coisa que me lembro são meia dúzia de rostos sorridentes, que me lembram minha irmã de cinco anos, olhando para mim e fazendo de tudo para me divertir, solidão, com certeza é falta disso, desse sentimento bom que tomava conta do meu co, cor, coração, é assim que se fala? Já tinha me esquecido o sabor dessa palavra, já não lembrava como é sentir o pulsar desse ser parasita que abrigamos, intruso, é isso que ele é, somente um intrometido em minha vida, só serve para colocar minhocas em meus pensamentos organizados, intruso que de burro e cego não tem nada, na verdade é o mais esperta aqui, consegue colocar teorias de anos ao chão com um simples pulsar mais acelerado, maldito, é o grande culpado de muita coisa, culpado de minhas loucuras momentâneas, do meu desespero exagerado, das minhas noites em claro, bem feito, ao menos não sofro sozinha, ele se doe, e as vezes doe tanto que tento dar tapas a fim de faze-lo parar, não adianta, o maldito ser é teimoso e insiste em bater, nem me importo, também sei ser cabeça dura.
Opa! Foco! Como eu estava? Voltei ao ponto de partida, eu podia responder que estava ficando louca, que minha vida a muito tempo não existia mais, podia contar toda minha dor e arrancar lágrimas depressivas de meus olhos. Eu podia contar sobre as loucuras que me afundei, o motivo de estar assim e todo o discurso de babado em beira e bar, podia contar como me feri com bobagens, como me levei por sentimentos irreais, como errei, como foi cada metro de agonia e desespero, podia falar de ódio, loucura, dor, podia contar todos os meus dias torturantes e as malditas dúvidas que me cercavam [cercam] naquele momento de divã fictício, pois não era real, não havia interesse nenhum em saber como eu estava, não havia vontade em meus sentimentos e dores, somente havia a maldita educação, o gesto de ser gentil, respirei, coloquei um sorriso no rosto, já estava ficando experiente em caras e bocas, pensei em tudo novamente e calei meus pensamentos - e então, como vai?
- Ah, um pouco cansada, mas muito bem e você ?

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